
Primeiro, gostaria de dar uma satisfação aos leitores por não ter postado nada ontem (21/05). Infelizmente tive problemas de saúde que me impossibilitaram de “postar”.
Eu podia começá-lo com a óbvia pergunta: “Qual o valor da vida humana?”
Mas, além de clichê, essa pergunta cai totalmente no vazio quando se trata de Brasil. Isso porque, em nosso amado país, todos sabemos que ela não vale absolutamente nada. Mata-se por um real nos sinais, mata-se por um par de tênis, mata-se por um time de futebol, mata-se por um amassadinho no carro. Enfim, mata-se por qualquer coisa.
Se o alvo do “Zé Maria” (A Morte – O Ceifador), for um pobre então. Aí é que não vale nem um centavinho sequer. Nem o estado se preocupa: “É menos um Bolsa Família.” “É menos um benefício do INSS.” “É menos um pobre sujo e fedorento”. Devem pensar nossas “autoridades” policiais, governamentais e judiciárias.
No Ceará, uma pobre mulher, vítima de um derrame que a fazia necessitar de um respirador artificial para viver. Teve a audácia de achar que o ar que respirava era de graça. Teve a ousadia de imaginar que as leis, que garantem seu direito à vida acima de todas as coisas, seriam cumpridas. Teve o pensamento ignóbil, em sua mente de pobre, de que era um ser humano e, por isso, tinha direito à vida.
Como todo pobre, não esperava atravessar o caminho de gente rica e poderosa. Não pensou, com seu cérebro destruído pelo derrame, que um rico empresário em seu escritório refrigerado, saboreando um whisk envelhecido 50 anos e fumando um charuto cubano. Olhasse na tela de cristal líquido de seu notebook de último modelo e visse que sua humilde casa de três ou quatro cômodos e de telhado sem forro; estivesse com a conta de luz atrasada.
Não contou, em sua ânsia desesperada por ar e por alguns momentos a mais de vida, que aquele homem, sacasse seu celular folheado a ouro e cobrasse de seus muitos empregados o motivo pelo qual aquele absurdo continuava ocorrendo.
Ela também, em sua imbecilidade de pobre, nunca imaginaria que um outro pobre como ela; compareceria à sua casa para ver o que acontecia. E ao ser informado, pela única moradora presente no local além dela, a sua neta, que a conta seria paga em alguns dias; e que sua avó dependia do respirador e da energia elétrica para viver.
Um alento passou por seus pensamentos de pobre e ela relaxou um pouco, afinal, era um outro pobre que batia á sua porta. Ele entenderia e reportaria o caso ao grande empresário. A lei seria cumprida e ela continuaria em sua luta pela vida.
No entanto, o que a mente de pobre daquela mulher não podia conceber, era que o outro pobre que batia á sua porta; era um pobre “honesto” e orgulhoso de ser cumpridor de seus deveres. Ela nem sequer imaginava que ele responderia secamente à sua neta: “Estou fazendo o meu trabalho. Vou cortar”.
Seu cérebro ainda tentou processar a informação repentina e estranha da escuridão e do silêncio. Tentou analisar o por que, de repente, ficara tão difícil respirar. Pensou… pensou…mas o que restava de sua mente de pobre, apenas pôde contemplar as alucinações visuais provocadas pela falta de oxigênio. Enquanto, o que restava de seu cérebro, agonizava e morria.
Bem longe dali, um rico empresário, dava um mergulho em sua piscina para, logo depois, saborear aquele vinho francês caríssimo.
Não muito longe da casa onde a mulher pobre sufocava até a morte, um zeloso trabalhador sorria enquanto ouvia a última piada no botequim.
E a justiça? Bem, fiquem aí, esperando por ela.
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