
Quando lemos a biografia de vultos da espiritualidade mundial, sempre temos a impressão de estarmos diante de ícones da força moral e espiritual. Seres sobre-humanos, que nos fazem sentir ínfimos ante nossas reclamações e problemas diários. Nossas dúvidas e nossa falta de fé no próximo e em Deus, nos afligem e nos humilham, em face da dedicação e do desprendimento que essas pessoas demonstram.
Madre Teresa de Calcutá foi um desses ícones de força, retidão moral e espiritual, fé inabalável e dedicação a sua religião. Mas, não foi bem assim.
Li hoje no portal G1, uma matéria interessantíssima sobre um livro publicado dez anos após sua morte. Lá, cartas escritas por ela ao seu amigo e confessor; o reverendo Michael Van Der Peet, em 1979. Nessas cartas, ela revela sua face humana; sua face de mulher e suas dúvidas.
“Jesus te ama de uma forma muito especial. No meu caso, o silêncio e o vazio são tão grandes que olho e não vejo, escuto e não ouço”; “Onde está minha fé, aqui no mais profundo não há nada, meu Deus, que dolorosa é esta pena desconhecida. Não tenho fé”; “Se há um Deus, perdoa-me, por favor. Quando tento elevar minhas preces ao céu, há um vazio tão condenador…”; “Peço, me agarro, quero, e não há ninguém para contestar -ninguém a quem me apegar, não, ninguém. Sozinha”; escreveu a missionária a seu confidente. (fonte G1)
Quem conhece a vida desta mulher incrível e acima de qualquer julgamento humano, sabe de seus exemplos e de sua força descomunal em prol do próximo. De família abastada, renunciou ao conforto e a uma vida social tranqüila para viver num inferno de pobreza, doenças e privações na Índia. Lá sofreu perseguições das autoridades locais, foi ameaçada por fanáticos religiosos e esteve à beira da morte por inúmeras vezes. Da miséria mais plena e absoluta, sua luz espiritual brilhou intensa e iluminou o mundo. O próprio Papa capitulou frente a sua fortaleza espiritual e pureza de espírito.
Apesar de suas dúvidas, expressas por ela mesma, sua fé maior era no amor ao seu semelhante. Fossem hindus, siks, muçulmanos, cristãos, budistas ou quaisquer outras designações. Parias ou indivíduos abastados e ricos. Todos encontravam nela uma fonte de luz e de força. Pessoas humildes tiveram suas vidas salvas e modificadas por suas mãos frágeis; mas sempre dispostas a se estenderem para quem precisasse.
Uma mulher, um Ser Humano descomunal. Com a imensidão dos céus em seu espírito. Mesmo assim, a dúvida sobre a existência de sua maior força motriz, Deus, a atormentava. Sentia-se só e desamparada em muitos episódios. Porém, jamais desistiu.
Eu, em minhas divagações, penso muito sobre Deus. Penso em como pode existir alguém como ele, com tanto poder e que deixe o homem fazer o que quiser sobre a terra. Mesmo que isso signifique matar seu semelhante e destruir a natureza. No fundo, pensava, se Ele existir, estou perdido. Mas agora, sinto-me mais aliviado e tranqüilo. Se até mesmo uma santa e uma alma tão iluminada teve dúvidas; quem sou eu, pobre mortal pecador e maldito, para querer ter fé inabalável em algo.
Hoje descobri que estou em boa companhia.
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