Lendo uma matéria publicada na revista Piauí (Nº 32, páginas de 50 a 53), sobre um verdadeiro império construído a base de mandioca e de polvilho azedo, transformados em biscoitos deliciosos e tradicionais por uma família de imigrantes portugueses; percebi como algum valores imutáveis podem sobressair-se sobre conceitos modernos de administração e práticas mirabolantes de reengenharia que brotam dos cérebros mais bem preparados de nossa nação e, quiçá, de outras.
Uma empresa que é praticamente tocada da mesma forma que na sua fundação e que tem, na qualidade e sabor inigualável do seu produto, o mote principal de seu sucesso. Um lugar onde empregados trabalham por vinte, trinta ou quarenta anos e de onde saem apenas se quiserem ou se não estiverem mesmo afim de trabalhar.
Mas, esse artigo não é sobre as maravilhas administrativas e de marketing da empresa por trás dos Biscoitos Globo. Na realidade, esse artigo é sobre coisas simples e sobre a enorme saudade de uma época em que famílias podiam caminhar pela cidade e se dar ao luxo de saborear um biscoito de polvilho em paz.
Desde antes de entrar no segundo grau, a percepção de que fora dos muros da minha casa havia todo um mundo que ansiava por comida, liberdade, paz, e alívio para terríveis sofrimentos que a mais criativa imaginação humana sequer poderia imaginar; acabou por interferir na minha criação de forma definitiva e moldou meu caráter propiciando que me tornasse um observador cético do ser humano.
Quanto mais aprendia: história, ciências, filosofia e lia tudo o que caia em minhas mãos, meus sonhos de criança definhavam e morriam diante da enormidade dos problemas que assolavam pessoas que eu sequer conhecia.
Lembro ainda com saudades do tempo em que meu pai me levava ao zoológico da Quinta da Boa Vista e ao Museu. Depois da visita, ficávamos por horas e horas conversando sobre tudo que havíamos visto e sobre histórias do passado (que ele me contava). Caminhávamos enquanto os vendedores ambulantes desfilavam os indefectíveis Biscoitos Globo, as balas puxa-puxa, algodão doce e inúmeras outras guloseimas que sempre estão presentes onde há concentração de crianças.
Naquele tempo (quem lê parece que estou falando dos anos de 1920 ou 1940), por volta dos anos de 1980, ainda podíamos caminhar tranquilamente por partes da cidade sem nos depararmos com seres humanos em frangalhos, corrermos o risco de ser atingidos por tiros próprios de áreas em guerra aberta ou de ser esfaqueado ao menor sinal de hesitação.
Lembro com saudades daquele tempo e daquele homem que me moldaram e propiciaram momentos inesquecíveis e cheios de ensinamentos preciosos. Lembro que sentado na grama da Quinta da Boa Vista ou na Areia da Praia de Copacabana aquele homem me ensinava que devemos pensar e nos preocupar com pessoas e países distantes (mesmo que talvez nunca venhamos a conhecer). Que devemos ter a mente aberta para o novo e para o que acontece ao nosso redor. que devemos estar preparados para o inimaginável e que, por trás de rostos sorridentes, podem estar armadilhas perigosas. Mas, acima de tudo, ele me ensinou que a alienação é a fuga do covarde e que um homem vale o mesmo que a sua palavra.
Valores antigos e que muitos consideram ultrapassados. As vezes, como hoje, invejo o bálsamo da alienação e do “não saber”. Mas logo sou chamado à realidade por esse ou aquela notícia.
A cidade em que vivo, não permite mais que famílias façam longos e demorados passeios com a devida tranquilidade que permite pensar nos lugares distantes, nas pessoas e em seus problemas. A cidade em que vivo, não permite que os pais ensinem os filhos a pensar e a se preocupar com o mundo que os cerca e que existe muito além dos muros de suas casas. A cidade em que vivo, não acolhe mais suas famílias e restringe ao máximo as caminhadas ao ar livre.
Mas, nesse mar de indiferença, alienação e violência; foi mundo bom saber que, a cidade em que vivo, ainda pode me dar essas lembranças na figura de um simples biscoito.
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É do interesse das classes politicas que assim permaneça,afinal,quem não tem opinião própria,usa a dos outros,que lhe comandarão a vida toda igual ao bonequinho do barril,que quando aperta embaixo fica mole e quando larga fica ereto.Quem tem vontade própria erra mas aprende,porque tem caráter.O resto vai com a onda.
Por uns instantes, ao ler esse post, me lembrei de como a minha infância foi boa, e me chateia saber que, meus filhos não estão vivendo uma infância parecida. Naquela época, eu podia jogar bolinha de gude, rodar pião, atirar mamona uns nos outros e até brincar de polícia e ladrão….sim, brincávamos de polícia e ladrão, mas num contexto totalmente diferente da mesma brincadeira de hoje em dia.
Bons tempos em que o perigo das amizades, era no máximo, um colega que era chegado num “baseado” de vez em quando.
Meu caro amigo, infelizmente, o problema não está restrito a sua cidade. O mundo é outro, ou melhor, as pessoas são outras… não há mais lugar como esses que você citou… restam somente as boas lembranças. E que boas lembranças restaram a nossos filhos?!?!?
Valeu!