Que a saúde pública no Brasil é um caos não é novidade para ninguém. Pelo menos para ninguém que precisa dela. Para os políticos brasileiros e, em especial, para os candidatos à presidência e aos governos estaduais e municipais a coisa parece ser completamente invisível.
A proposta de José Serra de entrega domiciliar de medicamentos é real, viável e factível. Ela já foi posta em prática aqui no Rio de Janeiro por um bom tempo, na administração César Maia. O grande problema da proposta é justamente controlar ou acabar com o descaso que move os políticos e os governos e a falta de continuidade crônica que as boas propostas possuem. O projeto, ainda aqui no RJ, “quebrou” porque os governos (estadual e municipal) simplesmente não mantiveram a regularidade do fornecimento dos remédios. Assim, havia meses em que uns pacientes recebiam o equivalente ao consumo do mês inteiro; outros recebiam apenas para uma semana e alguns sequer recebiam para um único dia. A bagunça chegou a tal ponto que o superfaturamento e inúmeras fraudes acabaram enterrando de vez a distribuição domiciliar de medicamentos.
Outro fator “interessante” e que parece ser praticamente invisível aos candidatos é a questão da inexplicável demora na solução de problemas simples como a realização de exames básicos e consultas médicas mais ágeis. Hoje, em alguns estados e municípios, você marca um exame “de urgência” para três, quatro ou cinco meses depois. Em alguns pontos críticos, cirurgias, tratamentos de câncer e um simples exame de sangue podem demorar anos para serem realizados.
Talvez seja esse o segredo da religiosidade do brasileiro. Afinal de contas, com um sistema de saúde assim, mais vale acreditar que as doenças são criadas por demônios e maus espíritos e apelar para uma cura milagrosa.
O mesmo se aplica às soluções. Ainda aqui no Rio de Janeiro, a “grande” solução para os problemas gravíssimos da área de saúde “brotou” do pensamento maquiavélico de Sérgio Cabral e se espalhou pelas garras de sua cópia mirim, Eduardo Paes. A mesma solução mágica foi amplamente defendida e encampada pelo governo Lula e oferecida como a resolução de todo mal que havia na área: As UPAS 24h.
As UPAS 24h são hoje – nem quatro anos depois da implantação da primeira unidade – uma obra de ficção e de mau gosto. Logo após a eleição municipal, os médicos foram retirados com a desculpa de “melhoria e racionalização” no atendimento. Sem ortopedistas, que por algum motivo misterioso não são considerados como médicos de urgência para esse pessoal, as UPAS acabaram se transformando em meras ante-salas dos hospitais. Como grande parte dos atendimentos de emergência é ortopédica; o cidadão era conduzido para a UPA, aguardava horas e, quando tinha sorte, era transferido para um hospital. Na maior parte dos casos era ele mesmo que tinha de “se virar” para conseguir atendimento. Atualmente, o retrato das UPAS é mais dramático do que o dos hospitais. O “24 horas” ficou apenas na fantasia, já que a noite apenas são feitos “cadastros” e os pacientes são obrigados a aguardar até de manhã pela chegada dos médicos (são pouquíssimas as unidades que ainda têm médicos a noite toda); as filas são quilométricas e o atendimento péssimo.
Essa é a ferida exposta do sistema de saúde que qualquer um pode constatar. Basta passar diante de qualquer unidade de saúde pública pelo Brasil a fora. Agora, muito mais dramática e revoltante, é a face oculta desse caos. A tragédia individual, que se abate sobre o brasileiro mais humilde e dependente do SUS, tem proporções muito maiores do que qualquer mente sã pode imaginar.
Basta saber que, em recente pesquisa do Ministério da Saúde, chegou-se à estarrecedora constatação de que 40 mil brasileiros ficaram inválidos ou tiveram seus membros amputados desde 2002 apenas devido ao descaso dos médicos e ao péssimo atendimento recebido no SUS. No entanto, já se sabe que esse número é muito maior. Afinal de contas as estatísticas do Min. da Saúde baseiam-se apenas nas amputações informadas pelos hospitais. Segundo a Federação Nacional das Associações e Entidades em Diabetes e da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular são mais de 40 mil amputações por ano. Aqui no Rio (e somente na capital), apenas em 2009, foram mais de mil amputações decorrentes de problemas provocados pelo diabetes avançado. O que mostraria ser impossível ter, no país todo, uma média de cinco mil amputações por ano.
Para que você tenha uma ideia da desgraça que isso representa, o índice oficial revela que 60% dos pacientes portadores de diabetes que se consultam nas unidades públicas sofrerão a amputação de alguma parte do corpo como desfecho do mau atendimento. Para comparar, basta saber que o índice máximo aceitável internacionalmente gira em torno de 9 a 12%.
Como se já não bastasse, nos “anos de ouro” da era Lula os números pioraram. Em 2000 esse índice era de 53%. Mas isso não se deve exclusivamente a Lula. É uma praga disseminada em nossa sociedade afetando estados e municípios com democracia e voracidade preocupantes. Com isso, pessoas que poderiam continuar vivendo normalmente e executando suas atividades laborais com regularidade, são jogadas nos braços da Previdência Social e passam a integrar a legião cada vez mais miserável e desassistida dos que dependem do governo.
Essa mal invisível para a maioria da sociedade que se preocupa apenas com as conquistas econômicas do governo federal e se lixa para as barbaridades cometidas pelos governos estaduais e municipais; é o mesmo que aplaude Lula e seus aliados ou beija a mão da oposição e dos salvadores da pátria que se apresentam com as soluções mirabolantes e fáceis de sempre: A falta de cidadania.
Infelizmente, sem uma sociedade séria que saiba cobrar suas necessidades e tenha em mente que saúde e educação são o princípio de tudo – além de tão ou mais importantes do que a economia – o Brasil terá, em seu sistema de saúde, uma verdadeira máquina de fabricar inválidos e uma fonte de alimentação da crueldade e do verdadeiro genocídio silencioso que vem sendo executado nos hospitais brasileiros há muito tempo.
E você leitor, o que acha disso?
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[...] This post was mentioned on Twitter by arthurius_maxim, arthurius_maxim. arthurius_maxim said: SAÚDE: MORTE, MUTILAÇÃO, DESCASO E A INVISIBILIDADE DO MAL. http://goo.gl/fb/6hyc6 [...]
Mas a saúde somente está assim porque alguns políticos malvados acarabam com a CMPF, esta “contribuição” tão bela e que tanto ajudava a saúde neste país.
depois que acabou com a CPMF tudo piorou….
Claro que estou sendo irônico, mas não duvido que o texto acima possa ser proferido por alguns de nossos queridos representantes, que certamente crêem que basta a CPMF para tudo se resolver (claro que me refiro ao bolso dele enchendo de dinheiro, ou a cueca, meia…).
Eu tenho uma proposta para rapidamente acabar com isso. Todo político, filho, esposa, quando no exercício do mandato, somente deveria usar os serviços públicos. Rapidinho eles deixariam de lado este blablabla e fariam para o que são pagos.
.-= Carlos Leda´s last blog ..Da série “Das coisas que não entendo” =-.
Vc realmente acredita que isso funcionaria?? Sou capaz de apostar com vc que se isso acontecesse, quando um político ou parente de político passasse mal, ele seria atendido na frente de todo mundo, com regalias, quarto privativo, e faria todos os exames rapidamente. Coisa semelhante acontece quando alguém importante é preso. Fica com um monte de regalias e o Habeas Corpus sai na velocidade da luz!
A saúde virou forma indireta de comprar votos. Chega época de eleição, o telefone do consultório não pára de tocar com Deputado “fulano de tal”, Vereador “beltrano”, para você atender alguém na frente dos outros por indicação dele. Oferece dinheiro, convites pra festas, enfim, é uma forma de entrar na rodinha dos influentes.
Aí vai o coitado que tá esperando 2 anos pra fazer uma ressonância e finalmente, após mto desespero, consegue o bendito exame. Em quem você acha que ele e a família dele vão votar???
Não adianta a gente querer vingança contra políticos, somos nós quem os colocamos lá! O Brasil só vai mudar quando os brasileiros começarem a pensar em sociedade.
A SAÚDE E UM BEM, NÂO UM DIREITO.
Nossa educação estatista intervencionista não nos permite ver isso.
O governo fez um bom trabalho em nos convencer de que a saúde é um direito ao invés de um bem, ele também generosamente se prontificou a atuar como o intermediário.
Políticos são muito bons em fazer parecer que os tratamentos médicos serão gratuitos para todos.Mas nada poderia estar mais distante da realidade.O governo não quer que você pense muito sobre como os hospitais serão financiados.
Apenas nos pedem que confiemos neles, os políticos, pois, de alguma forma, tudo vai dar certo.
A solução começa pela desregulamentação do mercado de seguro saude,deixando a saude publica e “gratuita” apenas pra quem realmente não poder pagar.Isso apenas pra começar,a questão e muito longa não vou me estender.
Deveriam fazer igual a proposta do Cristovão Buarque. Segundo a proposta, os filhos de políticos deveriam usar o sistema de educação publica. Estender isso para a saúde. Ai sim a coisa iria engrenar!!
Impressionante, mas não inacreditável o que acabo de ler. No Brasil, com a qualidade do sistema público de saúde e com a “ética” de boa parte de nossos médicos ávidos por enriquecimento acelerado, há de se acreditar em qualquer absurdo antes mesmo do bom senso suscitar alguma dúvida!
Abraços, amigo!
.-= vladir duarte´s last blog ..FELIZ ANIVERSÁRIO PARA MIM =-.
Hoje mesmo na faculdade, comentávamos que no Brasil precisaria ser impletado obrigatoriamente a sociologia e a filosofia desde as séries iniciais. Assim em um projeto de longo prazo, nosso Povo poderia, aos poucos iria despertar deste adormecimento. Por causa adormecimento de nossa gente o Sistema é o que é. Não vai mudar enquanto a grande maioria estiver com os olhos fechados para o que está a ocorrer.
Enquanto o povo dorme, os maus governantes fazem a festa, gerenciando de qualquer jeito o sistema de saúde…educação.
Só espero que nossos netos possam viver em um País mais consciente de quem o está dirigindo. Da minha parte, na Escola, faço o possível para que se concientizem do poder que tem a opinião e a pressão de cada indivíduo na sociedade.
Um abraço!
.-= Iza´s last blog ..Saudade de você =-.
Eu acho que precisaria ser criada uma disciplina chamada “Educação Social”, que mostrasse pras crianças como viver melhor em sociedade, pensando um no outro, não querendo o tempo inteiro se dar bem às custas do próximo, etc…
Mas antigamente tinha. Aliás, tinham duas: OMC e OSPB.
Só que aí os pedabobos e pedabobas, “especialistas” e tecnicuzinhos de educação resolveram tirá-las, porque eram dadas durante o período do regime militar, então, automaticamente elas eram más, feias e bobas e precisavam ser removidas.
.-= Lucho´s last blog ..Video fodástico do dia. =-.
iza
Nada adianta termos sociologia e a filosofia nas series inciais se o que sera ensinado sera a mesma conversa fiada de que o estado nos deve dar tudo e de “graça”.
O estado de bem-estar social se exauriu,os governos e funcionarios publicos nos roubam toda a renda,ano a ano extorquindo dinheiro do povo,de um ladrão ainda posso correr do estado não.
Peraí! O cumpanhero Lulla falô que u cumpanhero trabaiadô poderia usar a mesma maca du cumpanhero presimente e qui a çaudi pública tava perfeita…isso só pode ser conspiração da “midia golpista”.
Ih,desculpe….
Entrei no blog do PSDB/DEM…
Pra não perder de zero: DILMA 2010!!!!
Bons tempos quando se tinha uma profissão por amor à causa, e não somente visando ganho financeiro.Parece que tinhamos até testes vocacionais.Hoje empresas especializadas em apontar qual a profissão dá mais dinheiro.Uma verdadeira prostituição de profissões.Ganha-se para fazer e não mais faz-se para ganhar.A prioridade é tão somente financeira.Em todas as áreas.Quem poderia mudar a realidade da saúde?Quero crer que quem é apto para tal.Poucos os que se dedicam à causa que abraçaram por amor e sacerdócio.O dinheiro é que comanda e dita as regras infelizmente.Quando muito somos cobaias.Ou o governo pratica os mesmos valores (inviável),ou continuaremos sendo marionetes.E a única solução é apelar para o misticismo.Quem faz uma boa limpeza,é um bom faxineiro(a);retirada de lixo,um bom lixeiro;uma boa parede,um bom pedreiro.Um bom ptofissional que seja também um profissional bom.Simples não?Mas cadê a boa vontade e dedicação?Parece que alguém já escreveu sobre isso.
Voltei para dizer que os nossos políticos também tê culpa no cartório sim senhor.Quero crer que Política na verdadeira acepção da palavra,deveria ser algo como administrar para o bem da coletividade.Nada de simples partidarismo,sou político sim,não poderia deixar de sê-lo,mas apartidário,uma vez que partido não representa unidade nem unanimidade.Tão somente luta pelo poder de um grupo que quer dominar e impor.Oposição é tão somente ser do contra em todos os sentidos, e,quando há interesses comuns à eles (políticos),fazer conluios.Ao povo,os brioches.E por extensão,cada classe defendendo seu ganho.E como quem pode e tem mais chora menos,estamos nas mãos (para quem crê)de Deus,para quem é realista nas mãos dos poderosos.É o P.U.M.,”Partido do Meu Umbigo”.